John Cage: fazendo perguntas

David Tudor (esquerda) e John Cage no Shiraz Art Festival (1971). Foto: cortesia Cunningham Dance Foundation, via Wikipedia

Carlos A. Inada / São Paulo / Via Yvonne Senouf

A Philip Johnson Glass House, em seu programa Glass House Conversations — diálogos online moderados por líderes diversos de disciplinas criativas como arquitetura, arte, design, paisagismo e preservação —, está promovendo uma discussão online baseada em uma afirmação de John Cage, e em uma pergunta de Paul Soulellis, facilitador da discussão:

Desisti de fazer escolhas. Meramente transformei minha responsabilidade de fazer escolhas na de fazer perguntas. Não é fácil fazer perguntas. — John Cage

Do site das Glass House Conversations:

2012 marca o centenário do nascimento de John Cage, um dos artistas mais influentes do século XX e destaque no primeiro happening da Glass House (1967), com The Velvet Underground e Merce Cunningham.

Por cinquenta anos, Cage desenvolveu uma abordagem da música, da arte e do design baseada em “operações de acaso” — uma mudança no processo criativo, do gosto e do julgamento para um questionamento altamente disciplinado. Ao remover seus julgamentos do processo de decisão, Cage traz a tona questões críticas sobre o papel do ego na criatividade, sugerindo que uma aceitação mais aberta da ambiguidade e da incerteza — e mesmo do fracasso — no design seria algo valioso.

O ego é um componente crítico do sucesso no mundo do design de hoje? É possível uma humildade do design?

A discussão receberá comentários até domingo, 19 de fevereiro — e é uma boa oportunidade para participar de uma discussão pública sobre o legado de John Cage, principalmente para arquitetos e designers, público principal da Philip Johnson Glass House.

Pessoalmente, fico curioso por saber mais do caminho que leva da afirmação de Cage à pergunta de Soulellis — principalmente à ênfase deste nas noções de “ego” e “humildade de design”, que provavelmente refletem um tema de interesse e pesquisa de Soulellis. Além de confirmar a afirmação de Cage, de que “não é fácil fazer perguntas”, a discussão parece expressar temas que vimos abordando em nossos projetos em Dharma/Arte:

O que queremos dizer quando nos referimos ao “ego”?

Até que ponto críticas ao ego são úteis a artistas e criadores? Até que ponto elas reforçam o ego, ao mesmo tempo que tiram a confiança do criador naquilo que ele faz?

Até que ponto a maioria das abordagens críticas, ao proporem o que “precisamos” fazer, aquilo que “precisamos” abandonar etc., está reforçando uma abordagem “negativa” da criatividade, baseada naquilo que supostamente nos falta e não naquilo que podemos compartilhar?

Fazer perguntas parece ter a ver mais com abertura do que com restrições, com abrir mão de ideias preconcebidas que nos dão controle sobre as situações e encontrar maneiras que permitam que os processos se desenvolvam por si próprios, não por causa de algum imperativo moral (como o sugerido pela oposição “ego” × “humildade”), mas em busca de uma ligação mais verdadeira com o que quer que aconteça.

Faça seus comentários, e participe também da discussão no site das Glass House Conversations.

Leia também: “Homem Comum Enfim: duas conversas com John Cage”, em D/A Magazine

Share on Tumblr