O compositor/regente Tan Dun, conceitual e multifacetado, vem deixando uma marca indelével na cena musical com um repertório criativo que rompe as fronteiras entre os sistemas musicais clássico, multimeios, oriental e ocidental. Uma série de trabalhos central ao corpo de sua obra reflete seus conceitos sobre composição e ideias pessoais: entre elas, uma série que revive em obras sinfônicas suas memórias de infância de rituais xamânicos; trabalhos que incorporam elementos do mundo natural; e concertos multimeios. A ópera tem um papel significativo na produção criativa de Tan Dun da última década, mais recentemente com a estreia de O primeiro imperador, no Metropolitan Opera, em 2006, tendo Plácido Domingo como intérprete principal. Em 2008, Tan compôs a Sinfonia para Internet n.o 1, “Eroica”, encomendada pelo Google/YouTube como peça central da primeira orquestra colaborativa online. Entre seus muitos trabalhos para o cinema, a trilha de Tan Dun para O tigre e o dragão, de Ang Lee, foi premiado com o Oscar de melhor trilha original.
Ghost Opera, primeiro trabalho encomendado por um conjunto norte-americano, foi desenvolvido a partir de discussões com o Kronos Quartet e Wu Man, e a obra teve sua estreia na Brooklyn Academy of Music em 1995, após um programa de uma semana com os intérpretes no BAM Majestic Theater (atualmente, BAM Harvey). Desde então, Ghost Opera foi interpretada pelo Kronos e Wu Man dezenas de vezes ao redor do mundo, incluindo uma apresentação na sala de concertos de Beijing, em 1996.
As raízes de Ghost Opera podem ser encontradas nas nuoxi, ou peças de exorcismo da China antiga. As nuoxi eram parte dos rituais conduzidos pelas comunidades para espantar espíritos maléficos e conquistar a proteção de espíritos benevolentes. As cerimônias eram conduzidas por um wushi (xamã), capaz de comunicar-se com o mundo dos fantasmas. Embora desdenhadas por intelectuais chineses durante séculos, e reprimidas como “indesejáveis” pelo Governo chinês entre as décadas de 1950 e 1970, essas antigas tradições sobreviveram no campo, incluindo a região de Changsha, em Hunan, onde Tan Dun cresceu. Ghost Opera não é uma recriação etnográfica das nuoxi, e sim um tipo de ritual inventado, pertencente a um mundo fora do tempo, onde o moderno, o arcaico e o simplesmente antigo nebulosamente se misturam.
À atmosfera de mistério que impregna Ghost Opera se somam diversos elementos da obra que evocam rituais primitivos. No lugar do encantamento “nuo” (“exorcismo”), que era gritado repetidamente durante as nuoxi, os participantes de Ghost Opera frequentemente gritam “yao”. “Yao” é não apenas a exclamação típica usada pelos habitantes de Hunan mas pode também se referir à palavra chinesa para “demônio”. A elementar “dança da terra”, que une os cinco músicos sobre o palco, evoca a comunidade em busca de ajuda pelos e dos fantasmas. O quarto movimento, “Metal, pedras”, cria uma música que os chineses da idade da pedra e do bronze poderiam ter reconhecido.
O diálogo xamânico com o mundo dos espíritos é tornado visível por meio de uma antiga tradição teatral chinesa: o yingxi, ou teatro de sombras com bonecos. A primeira de tais peças invocava os fantasmas: o imperador han Wu, esgotado pela morte de sua concubina favorita, Li Furen, ordena ao mágico Shao Weng que chame por seu espírito por meio de sombras projetadas sobre um pano branco. Ao ver o teatro de sombras com bonecos, o poeta Liang Huang refletira: “A vida humana é como o meio de um sonho”, um sentimento ecoado por Tan Dun ao fazer com que nas sombras o violoncelista entoe os versos de Shakespeare: “Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos”.
No centro da obra estão dois fantasmas enigmáticos, tênues e sem substância: uma citação do Prelúdio de Bach em dó sustenido menor do Cravo Bem Temperado e a canção popular chinesa “O pequeno repolho”. As duas peças apresentam um estudo de contrastes: uma menor, polifônica, europeia, composta por um homem e interpretada por um quarteto masculino; a outra, pentatônica, monofônica, chinesa, cantada aqui por uma mulher que se lembra dos pais falecidos. Mesmo assim, na névoa vaporosa de Ghost Opera, essas distinções parecem não importar. No terceiro movimento as duas canções se fundem, mescladas em um fantasma andrógino que não é claramente nem uma nem outra.
Com o choque do gongo, os fantasmas são banidos. Suas vozes desaparecem no silêncio por trás do sussuro do papel. Branco como a morte, o papel se desdobra do mundo da sombra-espírito para nosso mundo. A forma do papel relembra os longos pergaminhos chineses com paisagens. Cantando para os mortos, Wu Man chacoalha o canto esquero do pergaminho, a parte da pintura em que termina a jornada e o mundo se dissolve.