Lugar, tema, ver: libertando as borboletas — Fotos: Jason Lucas

Fotos: Jason Lucas

Jason Lucas / Chillicothe, Ohio

As três semanas de uma recente visita fotográfica à China lembraram-me novamente quão fugidia e delicada a habilidade de ver pode ser para um fotógrafo, Dei boas-vindas a essa viagem sem reservas. Tinha a consciência de que, em parte devido à rotina e à repetição, havia começado a ter problemas para ver. Apenas saía e fotografava, e voltava para casa com as mãos vazias, ou com fotos com as quais sabia que não tinha “conexão”, fotos que não significavam nada para mim. Era como se — embora meus olhos ainda funcionassem fisicamente tão bem como antes — estivesse ficando cego.

Ao fazer fotos nos mesmos lugares por muito tempo, os olhos de um fotógrafo facilmente se tornam preguiçosos — começam a tomar as coisas como certas, a perder o que está bem embaixo do nariz, começam a busca exaustiva e interminável de algo novo, algo diferente, algo “interessante”. Quando a minha relação com um lugar muda e me torno mais familiar com ele, meu foco como fotógrafo tem a tendência de deslocar-se da linha, padrões, espaço, tom, simetria e textura para um tema — a ideia da fotografia como documento. Quando me preocupo demais com o que está na fotografia e com o interesse geral do tema, é como se perdesse algo maior, algo mais substancial. Transformo-me em um tipo de contador (ou, na melhor das hipóteses, curador), dando a mim mesmo a tarefa de fazer um inventário do que me cerca e “capturar” fotograficamente itens relevantes ou importantes, fixando-os em um painel de exibição como um colecionador de borboletas em uma feira de ciência. “Olhe, você vê este objeto? Vê este lugar? Olhe onde eu estive, olhe o que eu vi! Não é interessante?” E, enfim, não penso que sejam essas as questões (ou o trabalho) que quero fazer com minhas fotos.

Nas semanas e meses antes de minha viagem, tinha sentido meu pensamento tomar essa direção, e sacudir um pouco as coisas visualmente parecia ser um boa ideia. Uma viagem para a China era promissora para isso; viajar para qualquer lugar desconhecido parece permitir uma perspectiva fresca, na medida em que é difícil para mim ficar entediado com coisas que nunca vi antes. E essa não seria apenas uma viagem para uma cidade próxima no sul de Ohio, com hidrantes pintados de cores diferentes ou prédios alguns anos mais velhos. Na China, sabia que a arquitetura, a infraestrutura, o trânsito, a sinalização , a cultura popular seriam diferentes; de certa maneira, contava com um “choque cultural” que sacudisse e despertasse minha visão.

E, naturalmente, sacudiu. Meus primeiros dias na China foram tão visualmente estimulantes que quase me esmagaram; tudo parecia tão relevante, tão merecedor de atenção fotográfica. Fotografava tudo o que via. Ao final de três dias, tinha tirado 1500 fotos! Em certo ponto, no entanto, ao manusear com dificuldade todo o lixo que tinha fotografado na inebriante excitação daqueles primeiros dias, percebi que não estava, ainda, realmente vendo — ainda estava apenas olhando, ainda estava tão apegado à ideia de fotografia como documento como quando partira dos Estados Unidos. Decerto, estava documentando mais na China — mas estava prestando muito mais atenção ao tema do que à cor, composição, luz. E estava produzindo fotos que achava supremamente entediantes, no máximo. Ocorreu-me que o que antes considerava como “não ver” — tomar o que me cerca como certo, deixando escapar o que sempre esteve bem embaixo do nariz — era apenas uma maneira de “não ver”. Para mim, pelo menos, dar demasiada ênfase ao tema e tratar a fotografia como representação é evidência de outra maneira.

Felizmente, depois de poucos dias, o choque inicial começou a desgastar-se, e enfim eu parecia me instalar e retornar ao negócio de ver. Durante o restante de minha estada na China, tentei manter em mente que a fotografia tem o potencial de ser mais — mais que a representação direta de um tema, mais que uma prova de presença ou existência física, mais que outra borboleta morta afixada em um painel. E considero uma vitória que, quando amigos e conhecidos invariavelmente me perguntam se visitei a Grande Muralha, possa dizer: “Sim, mas você nunca saberia disso vendo as fotos que tirei”.

Share on Tumblr