Laurie Anderson — Um anjo sendo soprado de volta para o futuro

Laurie Anderson, “The Dream Before” (a.k.a. “Progress”). Ao vivo em San Remo, 2001

Hansel and Gretel are alive and well
And they’re living in Berlin
She is a cocktail waitress
He had a part in a Fassbinder film
And they sit around at night now drinking schnapps and gin
And she says: Hansel, you’re really bringing me down
And he says: Gretel, you can really be a bitch
He says: I’ve wasted my life on our stupid legend
When my one and only love was the wicked witch.
She said: What is history?
And he said: History is an angel being blown backwards into the future
He said: History is a pile of debris
And the angel wants to go back and fix things
To repair the things that have been broken
But there is a storm blowing from Paradise
And the storm keeps blowing the angel backwards into the future
And this storm, this storm is called Progress

João e Maria estão vivos e bem
E vivem em Berlim
Ela é uma garçonete 
Ele atuou em um filme de Fassbinder
E é noite e eles jogam conversa fora agora, tomando tônica com gim
E ela diz: João, você realmente me deprime
E ele diz: Maria, você realmente sabe como ser uma peste
Ele diz: desperdicei minha vida em nossa lenda estúpida
Quando meu único amor foi aquela bruxa perversa.
Ela disse: O que é história?
E ele disse: A história é um anjo sendo soprado de volta para o futuro
Ele disse: A história é um amontoado de ruínas
E o anjo quer retornar para corrigir as coisas
Arrumar as coisas que foram quebradas
Mas uma tempestade sopra do Paraíso
E a tempestade continua a empurrar o anjo de volta para o futuro
E essa tempestade, essa tempestade é chamada Progresso

Paul Klee, Angelus Novus (1920). Óleo litográfico e aquarela sobre papel, 31,8 × 24,2 cm. Doação de Fania e Gershom Scholem, Jerusalém; John Herring, Marlene e Paul Herring, Jo Carole e Ronald Lauder, Nova York. © VG Bild-Kunst, Bonn

Uma pintura de Klee chamada Angelus Novus mostra um anjo olhando, como que prestes a distanciar-se de alguma coisa que está contemplando fixamente. Seus olhos estão arregalados, sua boca, aberta, suas asas, despregadas. É assim que se retrata o anjo da história. Seu rosto está virado para o passado. Onde percebemos um encadeamento de fatos, ele vê uma só catástrofe, que acumula ruínas sobre ruínas e as atira a seus pés. O anjo gostaria de ficar, de despertar os mortos e restaurar o que foi destruído. Mas uma tormenta está soprando do paraíso; ela fustiga suas asas com tamanha violência que o anjo não consegue mais fechá-las. Essa tormenta impele-o irresistivelmente em direção ao futuro, para o qual suas costas estão voltadas, enquanto o monte de destroços diante dele cresce até o céu. Essa tormenta é o que chamamos de Progresso.

Walter Benjamin, “Teses sobre a filosofia da história”, IX, in Iluminações

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