Laurie Anderson, “The Dream Before” (a.k.a. “Progress”). Ao vivo em San Remo, 2001
Hansel and Gretel are alive and well And they’re living in Berlin She is a cocktail waitress He had a part in a Fassbinder film And they sit around at night now drinking schnapps and gin And she says: Hansel, you’re really bringing me down And he says: Gretel, you can really be a bitch He says: I’ve wasted my life on our stupid legend When my one and only love was the wicked witch. She said: What is history? And he said: History is an angel being blown backwards into the future He said: History is a pile of debris And the angel wants to go back and fix things To repair the things that have been broken But there is a storm blowing from Paradise And the storm keeps blowing the angel backwards into the future And this storm, this storm is called Progress
João e Maria estão vivos e bem E vivem em Berlim Ela é uma garçonete Ele atuou em um filme de Fassbinder E é noite e eles jogam conversa fora agora, tomando tônica com gim E ela diz: João, você realmente me deprime E ele diz: Maria, você realmente sabe como ser uma peste Ele diz: desperdicei minha vida em nossa lenda estúpida Quando meu único amor foi aquela bruxa perversa. Ela disse: O que é história? E ele disse: A história é um anjo sendo soprado de volta para o futuro Ele disse: A história é um amontoado de ruínas E o anjo quer retornar para corrigir as coisas Arrumar as coisas que foram quebradas Mas uma tempestade sopra do Paraíso E a tempestade continua a empurrar o anjo de volta para o futuro E essa tempestade, essa tempestade é chamada Progresso
Uma pintura de Klee chamada Angelus Novus mostra um anjo olhando, como que prestes a distanciar-se de alguma coisa que está contemplando fixamente. Seus olhos estão arregalados, sua boca, aberta, suas asas, despregadas. É assim que se retrata o anjo da história. Seu rosto está virado para o passado. Onde percebemos um encadeamento de fatos, ele vê uma só catástrofe, que acumula ruínas sobre ruínas e as atira a seus pés. O anjo gostaria de ficar, de despertar os mortos e restaurar o que foi destruído. Mas uma tormenta está soprando do paraíso; ela fustiga suas asas com tamanha violência que o anjo não consegue mais fechá-las. Essa tormenta impele-o irresistivelmente em direção ao futuro, para o qual suas costas estão voltadas, enquanto o monte de destroços diante dele cresce até o céu. Essa tormenta é o que chamamos de Progresso.